A comida não é mais do que um meio para encaixar metáforas. MM... Food sucede Mudvillainy, a magnífica, perfeita, colaboração com Madlib. Doom usa praticamente os mesmos truques de produção de Madlib: referências ao cinema, séries de televisão e comics. Confirma a incapacidade do rapper/produtor de travar a sua veia criativa que, em poucos meses, para além das obras MF Doom, o levou à criação de discos sob os pseudónimos/alteregos Viktor Vaughn e King Geedorah. Ao contrário de outras obras de Doom e apesar de, de certa forma, ser um álbum conceptual, MM... Food não cria uma narrativa sólida, uma história com principio meio e fim. Ainda que, ao lado de Mudvillainy, seja um parente pobre, não deixa de ser magnífico.
domingo, 23 de novembro de 2014
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
[Semana 10-11-04] Eminem edita "Encore"
É com Encore que Eminem dá início o período de declínio criativo que ainda hoje dura. Irónico, pois: um encore, se exceptuarmos um concerto de Eddie Vedder (com ou sem os Pearl Jam) tende a ser um fim. Em sua defesa podemos escrever que nem com os seus piores discos, os que não ligámos nenhuma, a dupla Relapse e Recovery, Eminem perdeu a relevância, principalmente se tivermos em conta a comercial.
Mas não é apenas a decadência criativa que Encore anuncia. Meses antes Kanye West tinha-se estreado com The College Dropout. O plano de domínio global começava a ganhar forma. As listas anuais davam conta da ascensão de um e o declínio de outro. Relembre-se: estamos ainda no âmbito criativo, Eminem ainda hoje quebra records e a Internet garantiu-lhe a frescura mediática que lhe tem faltado em estúdio.
Na altura, College Dropout tinha passado despercebido para grande parte do público de Eminem. Encore e How To Dismantle an Atomic Bomb dos U2 disputavam protagonismo e as apostas sucediam-se: qual dos dois blockbusters da reentrée "leakará" primeiro? Eminem ia dando nas vistas com o vídeo de "Just Lose It", os U2 chamavam atenções através de projetos como o Band Aid 20 e a gravação de uma nova versão de "Do They Know It's Christmas?". A polémica, o instrumento de propaganda favorito de Eminem, ele, sempre foi de alvos fáceis. Michael Jackson no vídeo de "Just Lose It", George W. Bush no de "Mosh" são os mais óbvios. Resultado: críticas em relação ao primeiro - Stevie Wonder chegou a dizer que "não se bate em alguém que já está no chão" - e problemas com a lei em relação ao segundo - em causa, a escolha das palavras: "Fuck money / I don't rap for dead presidents / I'd rather see the president dead / It's never been said, but I set precedents".
Encore é um rapper no topo do mundo, sem nada a provar. A falta de ideias deixaria-o cinco anos longe das edições.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
[Semana 27-10-04] Death From Above 1979 editam "You're a Woman, I'm a Machine"
Bizarra a forma como os Death From Above 1979 deixam de existir quase anónimos após esta auspiciosa estreia e, meia-dúzia de anos depois regressam para uma celebrada digressão mundial que começou com o regresso-surpresa no South By Southwest. Num contexto, apesar dos Strokes e dos White Stripes - em que o rock pouco ou nada traz de novo, este som que é punk que é dançável que é suado acaba por soar fresco. Um baixo e uma bateria, um ritmo infernal que, ironicamente, não ficaria mal como carta fora do baralho (a par dos Rapture) na DFA de James Murphy, a mesma que obrigou Sebastien Grainger e Jesse F. Keeler a colar um ano, o último da década de 70, ao nome pensado a priori. Até a cowbell lá anda em "Sexy Results", a última das excelentes 11 canções de um excelente primeiro álbum.
terça-feira, 7 de outubro de 2014
[Semana 06-10-04] R.E.M. editam "Around the Sun"
Despachando a coisa rapidamente, Around the Sun é uma seca - o pior disco dos R.E.M. No meio de dez canções absolutamente dispensáveis, três que retemos (curiosamente ou não, as três primeiras): "Leaving New York" e "Electron Blue", razoáveis canções que entram no campeonato das canções a meio tempo em que a banda de Michael Stipe se foi especializando, e "The Outsiders" que convida Q-Tip, o rapper ex-A Tribe Called Quest, escabrosa tentativa de "modernidade", de adaptação ao século XXI, o século em que os R.E.M. deixaram de ser relevantes e, por fim, terminaram.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
[Semana 22-09-04] Saul Williams edita "Saul Williams"
Um tipo que evita os clichés do hip hop, embora neles caia quando crítica a MTV e toda a gratuitidade a ela associada - sim, em 2004 isto tudo até soava pertinente, embora imprevisível. Um gajo que usa uma toalha de samples hardcore/industrial para "rappar" sobre política, guerra e afins evitando as rimas e a abordagem mais convencional. Não é uma surpresa pois este álbum homónimo é já o segundo de Saul Williams, mas não deixa de ser um dos discos de hip hop (?) mais desafiantes do ano.
[Semana 22-09-04] Junior Boys editam "Last Exit"
Os Junior Boys terão sido dos primeiros a perceber o potencial da Internet que, em 2004, não dava os primeiros passos, mas ainda estava muito longe dos dias loucos de hoje. O Myspace era a cena, o YouTube ainda não existia e o Facebook não era nem uma miragem. Os dois primeiros EPs do duo foram distribuídos por bloggers com afinidades com o som dos canadianos. Last Exit pega em quatro canções desses EPs e junta-lhes mais seis que seguem a mesma linha. Sem medos, esta é a primeira vitória dos Junior Boys. O resto está no som fresco do duo, devedor daquela música de dança criada mais para ser sentida do que dançada.
[Semana 22-09-04] Green Day editam "American Idiot"
Mais do que um disco político contra a administração Bush, seria apenas mais um no meio de tantos, American Idiot tem a seta apontada para dentro, para a América, a do 11 de Setembro, a dos fantasmas, a das guerras em nome do dólar, a América hipócrita e insegura. É sem dúvida nenhuma o disco mais ambicioso dos Green Day até à data - seguiriam-se várias edições do género a que fomos prestando cada vez menos atenção - chegando, por vezes, entre os épicos, citações/quase plágio aos clássicos do rock n' roll, canções punk e as baladuchas, a soar pretensioso. Há uma boa história a suportar isto tudo. Não, não nos referimos à jornada épica dos dois protagonistas desta aventura, St. Jimmy e Jesus Of Suburbia. Referimos-nos aquela que reza que este seria o "ou vai ou racha" da banda de Billie Joe Armstrong.
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
[Semana 22-09-04] The Go! Team editam "Thunder, Lightning, Strike"
Imagens VHS avulso gastas pelo tempo, divertidas onomatopeias saídas de um comic book carregado de cores alegres e divertidas, samples cortados e colados por um ex-editor do Discovery Channel e o seu irmão, rato de estúdio - os obreiros desta auspiciosa estreia. Verdadeira pedrada no charco capaz de agradar (ou desagradar) os fãs de hip hop, soul e os indies com menos preconceitos.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
[Semana 15-09-04] Arcade Fire editam "Funeral"
Funeral quase parece pregação, um manual ao qual podemos recorrer sempre que algo nos corre mal, uma Bíblia para os desafortunados - da miséria, do amor, da morte. Foi ajudado pelas apoteóticas actuações ao vivo - missas para os destroçados, uma banda capaz de unir o mundo, salvá-lo, anunciar a paz, ganhar um Nobel. No final do dia, não era nada disto. Era apenas um conjunto de 10 canções para melómanos atentos e impressionados com a carga emocional, a imprevisibilidade e a ausência de catalogação desta dezena incrível de faixas.
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
[Semana 15-09-04] Devendra Banhart edita "Nino Rojo"
Ouvimos Devendra Banhart a cantar sobre pardais e, mesmo que vislumbremos a metáfora inerente, não nos custa imaginar o ex de Natalie Portman a compor no meio da floresta. Não custa, pois, olhar para Banhart como um hippie fora de horas, fora do contexto que uma nova vaga de pares haveria de corrigir. Afinal havia espaço para este O.V.N.I. de letras desregradas e aspecto físico aparentemente descuidado. As canções parecem ter sido gravadas ao primeiro take, de forma despreocupada, e versam sobre macacos, caranguejos, tartarugas, corvos e porcos. Tudo muito muito bem humorado e metaforizado, apenas acompanhado com uma guitarra acústica várias vezes dedilhada. Nino Rojo é a segunda parte do projecto que havia começado com Rejoicing in the Hands, mas a exibição é boa ao longo das duas metades. Sem oscilações, como um jogador extremamente regular.
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