quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O que aconteceu na semana de 04-01-2005?


Notícias: 

- "Whatever People Say That I Am, That's What I'm Not", a estreia dos Arctic Monkeys é antecipado em uma semana. Motivo: leak do disco.

- Apple Inc. revela que vendeu 32 milhões de iPods em 2005.

Disco da Semana: 

The Strokes - First Impressions on Earth

Em Retromania de Simon Reynolds, o autor dedica um pequeno espaço a algo que chama de "discos não coleccionáveis", aqueles discos que não são suficientemente maus para ser cool juntar à colecção. Serve esta referência para, passe o exagero, dizer que First Impressions on Earth é o primeiro disco que o fã de Strokes ouve com desdém. Vem cinco anos depois de Is This It?, irrepetível clássico rock 'n' roll a abrir o século, um daqueles que só vem de tempos a tempos e que uma banda dificilmente conseguirá igualar. É preciso repetir o "erro" duas vezes. Is This It? é um erro, pois nestas andanças falhar é a norma. As expectativas enormes que rodearam Room on Fire dissiparam o pressão que se adivinhava a cada disco dos Nova Iorquinos. Mas não. Não, porque o segundo álbum, embora não seja incrível, é tido como muito bom. Ou seja, a qualidade caiu, sim, mas sabemos que o raio não cai duas vezes no mesmo sitio e, como tal, o muito bom, embora menor, acaba por ser suficiente. Julian Casablancas e companhia decidiram então fazer de First Impressions on Earth o seu blockbuster - oiçam "Heart in a Cage" ou "Vision of Division", por exemplo. Produção hi-fi, solos exibicionistas, virtuosismo puro. A editora ainda tentou atirar areia para a cara do consumidor "a crítica concorda que o álbum representa um regresso à melhor forma dos Strokes." Impossível, senhor Phil Penman. O tempo daria razão aos desconfiados: seguiu-se uma digressão e um hiato. Influenciados por um concerto dos Strokes, os Arctic Monkeys estavam prestes a explodir com o registo de estreia. Passagem de testemunho dos Strokes, uma das bandas mais influentes dos últimos 15 anos.


Citações com dez anos:

- "Com o "Silent Alarm" queria escrever sobre o que é ser um rapaz de 20 anos no mundo ocidental." (Kele Okereke)

- "Adoro The Smiths, mas soa-me quase tudo igual - quero ser mais como os The Who e em todos os discos mudar de som." (Mike Skinner)

- “Sinto-me inspirado por Roma porque é completamente diferente de Los Angeles, cidade onde passei a maior parte dos meus últimos anos. Por mais bonita que LA seja, esta pertence à polícia e a mais ninguém. Onde quer que vás, há polícia à espera de um motivo - por motivo nenhum - para te saltar para cima." (Morrissey Official sobre a inspiração do novo "Ringleader Of The Tormentors")

- "Ele sabe que, para chegar aos jornais, só tem que ser tão desagradável quanto possível. Quando li o que ele disse sobre nós, em 2005, soou a uma miúda do secundário extremamente neurótica." (Alex Kapranos, em relação a Liam Gallagher)

- "Já disse muita coisa sobre o disco, mas sai em Março." (Slash, sobre "Chinese Democracy", o muito adiado disco dos Guns N' Roses)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

[Os melhores álbuns de 2005] 1º - M.I.A. - Arular


"London, quiet down I need to make a sound. New York, quiet down I need to make a sound. Kingston, quiet down I need to make a sound. Brazil, quiet down I need to make sound". Arranca assim "Bucky Done Gun" (saudades deste Diplo?), um dos singles mais fortes de Arular. Está tudo aqui: o grime londrino - que, na altura, ainda vivia tempo excitantes com Dizzee Rascal e The Streets em topo de forma -, o hip hop nova-iorquino, o dub de Kingston e o baile funk brasileiro. M.I.A., um O.V.N.I. que, encorajado por Peaches, criou um álbum cujos beats base feitos numa Roland MC-505 - uma artista de quarto antes da propagação da espécie? - e politicamente inspirada nos tempos difíceis que terá viveu no Sri Lanka - o título é inspirado num nome código político usado pelo pai de M.I.A.: Arul Pragasam. Do título às letras é, portanto, justo referir que Arular é tremendamente influenciado pelo pai. Mais tarde viria a dizer que a cena punk londrina também teve uma grande influência no disco: dos Clash a Malcolm McLaren. Muito de vez em quando lá vem um álbum como Arular, complexo, que começa na capa e termina muitos anos mais tarde. Já o podemos classificar como clássico?

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

[Os melhores álbuns de 2005] 2º - Kanye West - Late Registration


Com Late Registration, Kanye consegue aquilo que nem Jay-z, nem Nas conseguiram: um segundo álbum ao nível da estreia. West admitira: "College Dropout tem coisas que foram feitas à pressa". Este não, seria à prova de bala, não fosse o magnífico produtor um rapper mediano. Em 2005, o ego já se manifestava, mas este é um Kanye mais humano - "Roses", por exemplo, é sobre a quase morte da avó e "Hey Mama" é um agradecimento à mãe. Lembramo-nos dos discos mais recentes e da forma como West vai potenciando as suas colaborações, Late Registration já tem isso: os versos do estreante Lupe Fiasco, do chefe Jay-z e do ex-arqui-inimigo Nas são pérolas ao nível da produção do West. "Sempre quis fazer um som que parecesse que estou a rappar do alto de uma montanha", dizia, como no vídeo de "Touch the Sky", com Pamela Anderson, em que a personagem de West acaba por se despenhar. Não é mais do que isso, um vídeo, pois Kanye, o polarizador, continua lá no alto da montanha.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

[Os melhores álbuns de 2005] 3º - Quasimoto - The Further Adventures of Lord Quas


Sempre que pensamos que Madlib abandonou Quasimoto (ou Lord Was ou Quas), ele regressa ao projecto. The Further Adventures Of Lord Quas é apenas o segundo álbum e chega cinco anos depois do primeiro, Unseen. Em 2013, assistimos ao surpreendente regresso com Yessir Whatever. Quer isto dizer que, mesmo que Madlib decida encostar o projecto durante os próximos dez anos, o melhor é não assumir que está enterrado. Quasimoto é apenas mais uma das muitas personagens do rapper e produtor, o equivalente a um shuffle de samples, ideias, letras e ritmos, soa a alguém facilmente se aborrecível a mexer no sintonizador de frequências de rádio. Para desfrutar plenamente é necessário tempo, ou no final o que vos ficará será apenas um tratado soul e funk de um "rapper" com voz de hélio. No final é tentar perceber porque é que um jornalista do New Musical Express deu um 2 numa escala de 1 a 10 a um disco destes - demasiado ocupados a ouvir a estreia dos Bloc Party?

domingo, 27 de dezembro de 2015

[Os melhores álbuns de 2005] 4º - Antony and the Johnsons - I am a Bird Now


Podemos perder-nos em eventuais metáforas relativamente ao título e identidade do artista Antony Hegarty. "Sou um artista, um animista, transgénero, ateu e um mamífero", esclareceu em entrevista à Out, sete anos depois. Mas I Am a Bird Now não é apenas um enorme desabafo de Hegarty, é o disco mais emocional desde... bem, desde Funeral dos Arcade Fire, editado meses antes. Os vários convidados - alguns andróginos, todos singulares - Boy George, Lou Reed, Rufus Wainright e Devendra Banhart - dão uma ajuda numa obra que tem muito de poética e que se baseia essencialmente na voz e piano, quase jazz, muito Nina Simone. Se não choraram ao ouvi-lo são bem capazes de não ter coração.

sábado, 26 de dezembro de 2015

[Os melhores álbuns de 2005] 5º - Sufjan Stevens Illinois


Illinois é o último álbum dedicado a um estado norte-americano, no âmbito do 50 State Project, premissa-brincadeira que Sufjan Stevens nunca se esforçou por cumprir, mas que chamou para si a atenção de muita gente. Mas que nada disto aliene a qualidade do trabalho de Sufjan que, com este 5º de originais chegou a muito mais gente. A viagem é épica, de mais de duas dezenas de canções (com títulos sem fim), instrumentos e músicos, constantes mudanças de direcção e harmonias, muitas. Tudo à grande. E à americana.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

[Os melhores álbuns de 2005] 6º - Devendra Banhart - Cripple Crow


Cripple Crow sucede os duplos projectos discográficos de 2002 (The Charles C. Leary e Oh Me Oh My) e 2004 (Rejoicing Hands e Niño Rojo) e confirma Devendra Banhart como um dos mais brilhantes escritores de canções da sua geração. A capa a la Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band antecipa a aventura épica de 22 canções, recheada de colaboradores e que bebe dos quatro cantos do mundo, Portugal incluído na célebre "Pensando Enti". Mais Cripple Crow é muito mais, é uma homenagem aos aos 50 (bossa nova, o Brasil) e 60 (a folk, os Beatles, Nick Drake, a pose hippie, John Fahey). É a maturidade aos 24, até ver insuperável.

[Os melhores álbuns de 2005] 7º - The Mars Volta - Frances the Mute


Não admira que Frances the Mute tenha sido recebido de forma pouco consensual - é um disco complexo, fora de tempo, diferente de tudo o que se fazia na altura e sem o efeito surpresa que acompanhou De-Loused in the Comatorium. Tanto louvores como apupos provêm do mesmo factor: complexidade técnica. Os que os defendem referem o virtuosismo, os que os atacam reclamam com a produção balofa e o puro exibicionismo. Rock sinfónico e psicadélico, música latina, música clássica e jazz. John Frusciante na guitarra, Flea no trompete e Larry Harlow, pianista de salsa nas teclas. Um disco louco, mas que ainda assim carrega a mais acessível canção do catálogo dos Mars Volta: "The Widow". Tem um refrão, imagine-se.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

[Os melhores álbuns de 2005] 8º - LCD Soundsystem - LCD Soundsystem


Em 2001, quando fundou a DFA, James Murphy virava trintão. Pouco depois, quando lança o single "Losing My Edge", tem 31. Em 2005, quando este muito antecipado homónimo chega às lojas já conta 34. Nunca encaixou nas premissas de uma estrela pop - demasiado peso, demasiado recatado e, pelo menos aparentemente, demasiado desajeitado, James Murphy é o herói indie improvável, chave mestra para aquela espécie de revolução que haveria de se seguir. O electroclash perde popularidade, a frente ofensiva da DFA tem os Rapture de "House of Jealous Lovers" em estado de graça e é a nova grande cena. LCD Soundsystem faz a ponte entre aquilo que os putos alternativos gostavam na altura - o pós-punk dos Bloc Party e Franz Ferdinand, o garage dos White Stripes e o rock dos Strokes - e a música de dança que, três anos depois, haveria de aprimorar e transformar numa obra-prima chamada Sound of Silver. Cerca de seis anos depois da estreia, Murphy, sabemos hoje, matou o projecto que "obrigou" os miúdos indie a dançar.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

[Os melhores álbuns de 2005] 9º - System of a Down - Mesmerize / Hypnotize


Mezmerize é metade de um plano que só acabaria no outono, com a edição de Hypnotize, aquele que acabaria por ser o último disco dos quatro arménio-americanos. Mezmerize é brutal, político, jocoso. Basta olhar para essa bomba que é "B.Y.O.B.", canção e vídeo - e pensar que vivíamos a reeleição de George W. Bush. O misto de influências que resulta num som genericamente catalogado de metal e a química entre Serj Tankian e Daron Malakian são impressão digital de uma banda que entra para aquele rol de poucas que conseguiu não errar. Por vezes, parece que estão a gozar, que não se levam a sério, que Mezmerize não passa de um testemunho tonto daquilo que lhes vai na cabeça. Mas não. Isto é a sério e muito sério. É uma denúncia feita por uma das mais influentes bandas da altura.

Com Hypnotize confirmava-se: o álbum duplo soou a enorme injustiça para com Daron Malakian, ele que terá sido o grande responsável por tudo o que ouvimos aqui. Os fãs adoram-no, mas os críticos apontam: devia ter continuado de boca fechado, tem demasiado protagonismo nesta ambiciosa investida. Percebemos que prefiram ouvir Serj Tankian, claro, é incomparavelmente melhor voz, mas Malakian não se sai assim tão mal e as baboseiras que vai cuspindo acabam por contribuir para uma das características que contribui para a impressão digital dos System of a Down (SOAD): humor. Independentemente das muitas coisas políticas que são ditas em Mesmerize e Hypnotize, o humor é omnipresente. E quanto mais estapafúrdio, mais político. É o último disco dos SOAD e nem vale a pena referir o nu-metal que a determinada altura lhes foi associado. Hypnotize mistura vários estilos sim, como o punk de "Kill Rock 'n Roll" e o trash metal de "Attack", passando por baladas como "Lonely Day". O ambicioso passo acabou por ser bem medido, os dois discos separados por seis meses acabaram por lhes dar protagonismo ao longo dos 12 meses de 2005. Dominaram o ano.